quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Democracia ditatorial ou ditadura democrática?

 
            No atual sistema que nos encontramos, o mais comum é a corrupção dos ideais que norteiam a democracia que vislumbra o horizonte das realizações sociais. Minar os ideais populares significa embutir valores ideológicos do sistema em gestão em suas concepções, maqueando as ideologias e falseando o ideário das classes sociais.
A democracia ( δεμοκράτοσ), governo do povo, assevera que o poder emana do povo, isto quer dizer que a população deve governar por seus representantes, mas o que ocorre é que os representantes legais do povo governa por si só. O que fere o ideal do povo e não cumpre a função originária da política (πολίτέίά) que é a “arte de bem governar” pautado pela “φροηέςίσ” (fronesis) que é a arte do bem viver.
Algo que  indagamos é: o que faz com que  nossos representantes nos traiam? Quando inseridos e de posse no poder, parecem não ser os mesmos, pois esquecem ( a maioria) que se estão onde estão é por causa da população que creditou a eles seus votos. Creditar, dar crédito, é como dar um empréstimo, se não devolvido em ações, caracteriza-se em dívida, esta primeiramente, moral e depois, social. Esta dívida é devida por falta do horizonte ético-moral, onde os valores deixaram de perpetuar em virtude do desinteresse político.
A έυδάίμοηίά ( felicidade) social se concretiza  na eliminação ou atenuação das diferenças sociais, mas os coeficientes de pesquisas mascaram a realidade assegurando a redução de pobreza, mas a pobreza não foi reduzida, o que houve foi medidas paleativas e camufladoras. Nossa política social tem que agir de modo efetivo e não afetivo, ou seja, o agir efetivo das políticas sociais  se caracteriza na concretização da cidadania plena, pois as medidas paleativas repetem a “cidadania regulada”, não possibilitando a emancipação social do ser. O ser emancipado é um ser em maior potencialidade devido a sua liberdade, pois esta traz ao ser um horizonte de compreensão do real como espaço e tempo de se auto-produzir.
A produção humana é auto-poiésis, compreende que o ser se produz naquilo que faz, sendo livre, sua liberdade se torna um vetor de realização pessoal e profissional, caso contrário, sua falta de liberdade será elemento vetorial de insatisfação social e pessoal, causando assim as mazelas sociais em alguns que não visualizam sua projeção no social, permanecendo às margens da sociedade, sendo excluídos dos ditos inclusos e “assistencializados” pelo governo e não potencializados.
Se há democracia, onde fica a participação destes comtempladores do horizonte vazio? Muitas medidas são tomadas para falsear a participação social como fóruns, seminários e conferências. Temos observado que em alguns municípios realizaram-se estas medidas participativas, onde o governo se faz presente não de modo parítário, deixando a outra metade das vagas para os diversos segmentos, resultado: aprovação em massa das propostas do governo e reprovação de muitas das reinvidicações que surgiram dos segmentos sociais. Averigua-se que o governo municipal já tinha suas metas e queria dar uma roupagem de participação social, aparentemente deu certo, pois como os assessores estavam diluídos pela assembléia, aparentavam ser das comunidades e segmentos.
Que moral é está que ludibria o povo? Que ética apresenta tal governo? 
Democracia de papel, isto é, democracia mascarada e personificada pelo governo.
As roupagens  aparentam ser democráticas, mas essência, ditatorial. Como nos afirmou Exupéry que o essencial não é visto pelos olhos, nota-se a esperteza e ignorância ( αζίηοία  e αμαθία) do poder público. Com certeza que para grande parte da população houve participação, pois foi visto, mas essencialmente não se percebeu a vontade política de auto-afirmação diante da comunidade. Esta é uma política maquiavélica, onde “os fins justificam os meios”.
O relata acima se refere a uma administração dita popular que se firma no poder com o “diálogo” direcionado e intenções bem concretas, diz-se aberto à participação, mas desta forma.
Quando a alteridade for centro de vontades políticas, teremos um governo voltado para o outro e não para a projeção política do eu.

COISA = PALAVRA

“A coisa é a palavra. A palavra é a coisa. Quem domina a palavra, domina a coisa!”

A esta assertiva concluo que dentro da lógica dedutiva, sintética analítica, que a materialização da palavra é real. A materialização, a que me refiro, segue todo um processo, antes de ser palavra (λоγоσ) é pensamento que brota do âmago do ser como vontade de libertação. Libertação esta que pode ser (é) tornar-se Ser. A atividade intelectual eclode o pensar numa força vetorial lançando-o à esfera da ex-istência para Ser aquilo que ainda não o é ( não-ser) afim de encontrar corporeidade na realidade.
A liberdade definidada por Martín Heidegger como “deixar o Ser ser aquilo que é”, é o rompimento com qualquer barreira quer ôntica, epistêmica ou fenomenológica. Para ser o Ser independe dos axiomas sócio-político-cultural. Ele é “a priori” um ser a-religioso, pois o sentido não está no ser, mas o que fazemos do ser. O horizonte de significados que o ser carrega consigo, nada mais é do que um “ conjunto” de significados trazido pelo próprio ser pensante que é ex ao ex-istente ao ser de significado.
Averiguo o cogito cartesiano nesta perspectiva – Penso, logo existo! - Existo por pensar, ou penso por existir? Descartes põe o pensar como pré- evidência e evidencia que a existência que circunda o ser pensante está atrelada a ele imediata ou será mediatamente? Deixo isto para mais adiante. (...) mas, posso consignar a existência dos seres ao intelecto (razão)? Antes da sapientiae será que não houve ser? Não houve por que não ex-istiu ou por que não se pensou na sua ex-istência? Olhando para a palavra ex-istência destaco uma parte – EX – que por si só revela e desvela que o ex-istente só pode estar fora do pensante, i.é., já é ser materializado.
Só se toma consciência em contato com realidade distinta, senão haveria uma confusão com o próprio ser, e isto não seria cons-ciência e sim, auto-reflexo. A cons-cência requer um scire junto ao imanente e não ao in-ex-istente, ou seja, é soma de realidades do ser pensante com a do ser pensado.
O eu pensado pode ser um ex-istente, pois deixou de ser sujeito para se tornar objeto de minha especulação filosófica, isto é, meu eu pensante, com isso lancei para ex de mim para ser capaz de analisar. Este sair de si, auto-transcender, é próprio dos que buscam o aperfeiçoamento pessoal, todavia, quanto mais se sai de si mais se encontra (→ . ←), como já nos foi dito pelo Oráculo de Delphos “ Conhece-te a ti mesmo”, o melhor caminho para se desvendar um mistério é se desvendar-se. No entanto Sócrates afirmou “ só sei que nada sei”, ou seja, pode-se muito mais... e nunca o “todo” de tudo e nem o “tudo” do “todo”!

Palavras, meras palavras! Não! Palavras não são meras palavras e sim PALAVRAS. E estas são materializadas de alguma forma, porque carregam consigo a intencionalidade, essas carregam consigo toda uma cons-ciência que podem derivar desde a ideologia à libertação.
A palavra reside no ser e por isto sai com características da sua morada, pela palavra pode-se ver o “retrato” do ser que fala, pois ela é elemento que revela e desvela o ser e é instrumento de poder, pois quem a domina, domina a si e  o que circunda.
A cultura judaico-cristã afirma que o ser fala daquilo que o coração está cheio, demonstra que ex-terioriza o que esta in-teriorizado. Ditados populares asseveram que sempre há fundo de verdade em brincadeiras, diria eu, não fundo de verdade, mas verdade, pois por detrás de toda insinuação há a intencionalidade quer in-cons-ciente ou não. A palavra legitima, dá poder, autoridade, porque vem vestida/despida do ser.

A coisa é ser. Parece ser uma forma pejorativa de atenuar o grau de Ser referindo à alguma coisa como coisa, mas não, coisa é coisa, coisa é real, é ser como qualquer outro ser. A assertiva “A coisa é a palavra. A palavra é a coisa. Quem domina a palavra, domina a coisa!”, é expectativa de o intelecto poder dominar. Quer em linguagens religiosas, filosóficas ou em outras vertentes epistêmicas sempre  se terá um horizonte a que se quer apontar, portanto: intenção.
Tem poder quem domina a fala. Graça Aranha, em sua obra Filosofando, diz que quanto menor a capacidade de fala, menor a capacidade de pensar e de agir e daí também interage menos quem tem menor capacidade de domínio da palavra. Não trago dimensão soteriológica ou escatológica para a palavra, pois esta não precisa, pois estes já são atributos próprios da palavra.
O que é a palavra?
Materialização ► ar ►intenção ► pensamento ► imagem e semelhança do ser ►  som  ► palavra
Por isto Wittingstein afirmava que do indizível melhor nada dizer. O que dizer  do inaudito? Muitas pessoas convencionais afirmam por aí :“ perdeu a oportunidade de ficar calado”, mentira! Palavra é essencialidade que revela a essência do ser, o que se perdeu foi a oportunidade de se revelar com ser bono, pulchro et vero.
A palavra como comunicação, compreendo que é: comunhão ( comum/ união) e ação e esta última dimensão é a concretização/materialização que poderá ser tanto dialética como histórica.
Não é simplesmente uma frase ou fala que desvelará o ser, mas suas palavras no cotidiano da ex-istência. A palavra tem servido, para muitos, para ludibriar, principalmente as de menores capacidades lingüísticas que conseqüentemente tem atenuadas reflexões acerca de si, do outro e do mundo.
Ler não é juntar signos e pronunciá-los, palavras são mais que somas, podem subtrair ou dividir em suas dimensões dia-bólicas, mas devem multiplicar pela dimensão sim-bólica. Ensinar a ler é objetivo de todas as áreas.
Ensinar a falar é ensinar a ser e é objetivo de todas as pessoas que se colocam no caminho que perpassa a ex-istência.
Dominar a palavra significa dominar as coisas. Visualizando tal cenário, seria dominar as realidades. Não digamos nem isso ou aquilo que nos fere ou a outros, mas digamos tudo o que edifica e “positiviza” a nós e aos outros. A palavra tem poder, eu tenho poder, pois sou a palavra!