quarta-feira, 28 de setembro de 2011

COISA = PALAVRA

“A coisa é a palavra. A palavra é a coisa. Quem domina a palavra, domina a coisa!”

A esta assertiva concluo que dentro da lógica dedutiva, sintética analítica, que a materialização da palavra é real. A materialização, a que me refiro, segue todo um processo, antes de ser palavra (λоγоσ) é pensamento que brota do âmago do ser como vontade de libertação. Libertação esta que pode ser (é) tornar-se Ser. A atividade intelectual eclode o pensar numa força vetorial lançando-o à esfera da ex-istência para Ser aquilo que ainda não o é ( não-ser) afim de encontrar corporeidade na realidade.
A liberdade definidada por Martín Heidegger como “deixar o Ser ser aquilo que é”, é o rompimento com qualquer barreira quer ôntica, epistêmica ou fenomenológica. Para ser o Ser independe dos axiomas sócio-político-cultural. Ele é “a priori” um ser a-religioso, pois o sentido não está no ser, mas o que fazemos do ser. O horizonte de significados que o ser carrega consigo, nada mais é do que um “ conjunto” de significados trazido pelo próprio ser pensante que é ex ao ex-istente ao ser de significado.
Averiguo o cogito cartesiano nesta perspectiva – Penso, logo existo! - Existo por pensar, ou penso por existir? Descartes põe o pensar como pré- evidência e evidencia que a existência que circunda o ser pensante está atrelada a ele imediata ou será mediatamente? Deixo isto para mais adiante. (...) mas, posso consignar a existência dos seres ao intelecto (razão)? Antes da sapientiae será que não houve ser? Não houve por que não ex-istiu ou por que não se pensou na sua ex-istência? Olhando para a palavra ex-istência destaco uma parte – EX – que por si só revela e desvela que o ex-istente só pode estar fora do pensante, i.é., já é ser materializado.
Só se toma consciência em contato com realidade distinta, senão haveria uma confusão com o próprio ser, e isto não seria cons-ciência e sim, auto-reflexo. A cons-cência requer um scire junto ao imanente e não ao in-ex-istente, ou seja, é soma de realidades do ser pensante com a do ser pensado.
O eu pensado pode ser um ex-istente, pois deixou de ser sujeito para se tornar objeto de minha especulação filosófica, isto é, meu eu pensante, com isso lancei para ex de mim para ser capaz de analisar. Este sair de si, auto-transcender, é próprio dos que buscam o aperfeiçoamento pessoal, todavia, quanto mais se sai de si mais se encontra (→ . ←), como já nos foi dito pelo Oráculo de Delphos “ Conhece-te a ti mesmo”, o melhor caminho para se desvendar um mistério é se desvendar-se. No entanto Sócrates afirmou “ só sei que nada sei”, ou seja, pode-se muito mais... e nunca o “todo” de tudo e nem o “tudo” do “todo”!

Palavras, meras palavras! Não! Palavras não são meras palavras e sim PALAVRAS. E estas são materializadas de alguma forma, porque carregam consigo a intencionalidade, essas carregam consigo toda uma cons-ciência que podem derivar desde a ideologia à libertação.
A palavra reside no ser e por isto sai com características da sua morada, pela palavra pode-se ver o “retrato” do ser que fala, pois ela é elemento que revela e desvela o ser e é instrumento de poder, pois quem a domina, domina a si e  o que circunda.
A cultura judaico-cristã afirma que o ser fala daquilo que o coração está cheio, demonstra que ex-terioriza o que esta in-teriorizado. Ditados populares asseveram que sempre há fundo de verdade em brincadeiras, diria eu, não fundo de verdade, mas verdade, pois por detrás de toda insinuação há a intencionalidade quer in-cons-ciente ou não. A palavra legitima, dá poder, autoridade, porque vem vestida/despida do ser.

A coisa é ser. Parece ser uma forma pejorativa de atenuar o grau de Ser referindo à alguma coisa como coisa, mas não, coisa é coisa, coisa é real, é ser como qualquer outro ser. A assertiva “A coisa é a palavra. A palavra é a coisa. Quem domina a palavra, domina a coisa!”, é expectativa de o intelecto poder dominar. Quer em linguagens religiosas, filosóficas ou em outras vertentes epistêmicas sempre  se terá um horizonte a que se quer apontar, portanto: intenção.
Tem poder quem domina a fala. Graça Aranha, em sua obra Filosofando, diz que quanto menor a capacidade de fala, menor a capacidade de pensar e de agir e daí também interage menos quem tem menor capacidade de domínio da palavra. Não trago dimensão soteriológica ou escatológica para a palavra, pois esta não precisa, pois estes já são atributos próprios da palavra.
O que é a palavra?
Materialização ► ar ►intenção ► pensamento ► imagem e semelhança do ser ►  som  ► palavra
Por isto Wittingstein afirmava que do indizível melhor nada dizer. O que dizer  do inaudito? Muitas pessoas convencionais afirmam por aí :“ perdeu a oportunidade de ficar calado”, mentira! Palavra é essencialidade que revela a essência do ser, o que se perdeu foi a oportunidade de se revelar com ser bono, pulchro et vero.
A palavra como comunicação, compreendo que é: comunhão ( comum/ união) e ação e esta última dimensão é a concretização/materialização que poderá ser tanto dialética como histórica.
Não é simplesmente uma frase ou fala que desvelará o ser, mas suas palavras no cotidiano da ex-istência. A palavra tem servido, para muitos, para ludibriar, principalmente as de menores capacidades lingüísticas que conseqüentemente tem atenuadas reflexões acerca de si, do outro e do mundo.
Ler não é juntar signos e pronunciá-los, palavras são mais que somas, podem subtrair ou dividir em suas dimensões dia-bólicas, mas devem multiplicar pela dimensão sim-bólica. Ensinar a ler é objetivo de todas as áreas.
Ensinar a falar é ensinar a ser e é objetivo de todas as pessoas que se colocam no caminho que perpassa a ex-istência.
Dominar a palavra significa dominar as coisas. Visualizando tal cenário, seria dominar as realidades. Não digamos nem isso ou aquilo que nos fere ou a outros, mas digamos tudo o que edifica e “positiviza” a nós e aos outros. A palavra tem poder, eu tenho poder, pois sou a palavra!

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